O Convidado
O Convidado
Olá pessoal, sou hóspede do vosso país. Sou alemão e não quero saber do Bolsonaro, nem do Lula… mas tenho, ao contrário de vocês, uma visão diferente que gostaria de poder explicar para que entendam um pouco melhor.
A primeira coisa: nunca vi, ou vi poucas vezes na minha vida, lojas oferecendo cartões para comprar no crédito, enquanto aqui mesmo os mais simples podem comprar em até 12 vezes ou com o cartão da loja.
Isso é um veneno para quem compra e uma bênção para quem vende, porque as pessoas compram sem ter o dinheiro.
Pior ainda: com o dinheiro de plástico, o máximo o cartão fica estourado e usa-se outro. Se fosse em espécie, vocês olhariam e diriam ‘não compro, porque não tenho dinheiro’.
A ideia que o Brasil teve foi dizer: ‘se você não pagar as suas dívidas ao fim de 5 anos, a dívida desaparece’.
A maioria dos bancos estatais e os outros, continuam financiando essa loucura, porque no momento em que se decidisse parar, o país pararia e os cidadãos declarariam falência.
A segunda coisa: o Brasil, assim como a Austrália e o Canadá, tem uma densidade populacional muito baixa, se tirarmos São Paulo.
Com isso, o Brasil também tem longas distâncias para transportar mercadorias — tão longas que se prefere produzir na cidade o que a cidade vai consumir, porque 3000 ou 5000 km de camião custam caro demais.
A vantagem: quase nada de importação e da grande distribuição, que mudou qualquer país na Europa e nos Estados Unidos. Sim, os produtos custam mais, mas há pelo menos três, senão mais, empreendimentos ganhando e gerando lucros — em vez de apenas um. Assim, a distribuição do dinheiro é mais fracionada e portanto mais resistente a crises.
A terceira diferença é a impossibilidade dos estrangeiros investirem no Brasil. Deixando de lado a criminalidade, a justiça é pura interpretação: basta um juiz em qualquer lugar do Brasil, decidir que não se pode viajar de moto no fim de semana e todo o mundo é obrigado a deixar a moto em casa para evitar multas.
Vamos fechar o WhatsApp, o Facebook etc… para falar das coisas mais populares.
O próximo problema é a educação: um manual de máquina escrito em inglês significa que quase ninguém vai entender como funciona.
E com isso, a falta total de mão de obra especializada, por exemplo para usar uma impressora 3D, ou uma máquina de controle numérico de nova geração.
Terminamos a brincadeira com a rua debaixo d’água — ou o que não está mais lá — e muitas horas de trânsito para fazer 50 km.
Por essas razões, o Brasil não pode ser comparado com, por exemplo, a Itália ou a Alemanha — não porque eles estejam melhores, mas porque são completamente diferentes.
O Brasil, demonstrou ao longo dos anos, que podia sobreviver e crescer com essas particularidades brasileiras, enquanto a Alemanha poderia quebrar imediatamente, se tivesse condições como as do Brasil.
As chances do Brasil são imensas: falta conectividade e infraestruturas — nem precisariam mais de manutenção nem de investimento para crescer, porque viajar 5000 km teria um custo proibitivo.
Mas com o dinheiro que não é necessário (como, por exemplo, na Alemanha), o Brasil poderia investir pesadamente em redes de internet, até mesmo fazendo acordos de uso de redes via satelite.
Se tem internet, tem comunicação.
Se tem internet, tem a possibilidade de escolarização em casa.
Se tem internet, tem a possibilidade de produção moderna, com impressoras 3D em casa, no seu país ou no seu vilarejo.
Basta decidir investir um pouco — não é a ponte para a Sicília, é simplesmente oferecer cobertura e fazer acordos.
O Brasil tem energia elétrica para vender… mas o consumo é altíssimo, pior do que muitos países da Europa. Um chuveiro elétrico funciona a 7000 Watts; uma casa europeia, não tem mais de 3000 Watts na entrada — são necessários três apartamentos para ligar um chuveiro elétrico. Um absurdo. O ar-condicionado etc. é de classe C, D, E, F, FF??? Incrível. Quanto maior o compressor, pior a classe energética.
Se por lei, não pensam em vender em classe elétrica alta, porque teria sobrepreço. E se tem sobrepreço, quem compra, compra melhor e não o descarte da produção mundial.
Mas o pior do ar-condicionado é o isolamento — o Brasil nem sabe como se escreve a palavra. Quando você liga o ar-condicionado, ele aquece ou arrefece os vizinhos, porque o sistema de construção não considera o isolamento térmico, nem o acústico na parede.
Não precisam de muito, para trocar pequenas coisas e gerar mudanças enormes. Se todo o mundo usasse a energia elétrica como se faz na Europa, já se pagaria menos da metade; ainda mais, poderiam exportar energia elétrica, como fruta e verdura, como todas as coisas magníficas que o Brasil produz: café, cacau, borracha, laranjas (não são taxadas nos Estados Unidos em 50%, porque se faltar o suco de laranja produzido no Brasil, não tem nos Estados Unidos — nem Trump poderia ignorar).
Aqui, vocês têm tudo para ser uma das melhores nações do mundo: brasileiros com capacidade, mas infelizmente, com uma profunda ignorância das próprias capacidades, porque nunca viram o que está fora do Brasil.
O Brasil não precisa de milagres, precisa de gente que veja o que já tem.
Claudio Klemp
Alemão residente e ospite (convidado) no Brasil desde 2013