A Lingua Portuguesa

A Lingua Portuguesa

Porque os portugueses têm a mania de aportuguesar nomes estrangeiros, como Irão, Francoforte etc. De um modo geral porque o Brasil e Portugal, tratam o idioma como uma espécie de “cultura”, sendo que é apenas uma ferramenta de comunicação…

«Porque os portugueses têm a mania de aportuguesar nomes estrangeiros, como Irão, Francoforte etc.?»

A ignorância não aproveita a ninguém. Se o autor desta “pergunta” tivesse um pouco mais de cultura e, soubesse mais línguas do que o Português, na sua versão brasileira, saberia que há mais povos que adaptam nomes estrangeiros à sua língua.

«De um modo geral porque o Brasil e Portugal tratam o idioma como uma espécie de “cultura?”» Porque é. E felizmente ainda há muitas boas pessoas, de ambos os lados do oceano, que assim pensam.
A língua não é meramente um sistema de comunicação, mas um patrimônio cultural, imaterial que carrega história, valores, visões de mundo e identidades de um povo.

O cuidado com a língua (seja ao preservar as suas normas, ao valorizar variações regionais, ao evitar estrangeirismos desnecessários ou ao resgatar palavras em desuso, refletem atitudes culturais: respeito pela tradição, preocupação com a clareza, afirmação de pertencimento, resistência a imposições externas e valorização da diversidade.
A língua não é uma prisão que determina quem somos, mas é como um hábito mental, ou um par de óculos culturalmente herdado. Ela treina a nossa atenção para certos aspectos do mundo (espaço absoluto, nuances de cor, intencionalidade de ações) e, ao fazer isso repetidamente ao longo da vida, acaba moldando os nossos padrões de pensamento e até aspectos do nosso comportamento, que consideramos parte da personalidade.
Portanto, sim, a influência é real, subtil e profunda. A língua que falamos pode sim influenciar aspectos da nossa personalidade e, de forma mais ampla, a nossa forma de perceber, categorizar e interagir com o mundo.

Esta ideia está associada a diferentes graus do chamado relativismo linguístico, frequentemente resumido pela hipótese de Sapir-Whorf. Embora a versão forte (a língua determina o pensamento) seja amplamente rejeitada, a versão fraca (a língua influencia hábitos mentais) encontra respaldo em diversas pesquisas.
Posso dar-te o exemplo da perceção de cores. Falantes de línguas que têm palavras distintas para tons que consideramos “azul claro” e “azul escuro” (como o russo) tendem a ser mais rápidos e precisos em distinguir esses tons, do que falantes de línguas que usam uma única palavra (como o inglês ou o português, que usam “azul” para ambos).

Outro exemplo, línguas que distinguem entre eventos acidentais e intencionais de forma gramatical (como o espanhol ou o japonês) podem afectar como os falantes se lembram de quem fez o quê. Num estudo, falantes de inglês (que costumam dizer “ele quebrou o vaso” mesmo em acidentes) lembravam melhor quem cometeu o acto do que falantes de japonês (que usam uma construção passiva para acidentes: “o vaso quebrou-se”).
Falantes de línguas com género gramatical (como o português, onde “ponte” é feminino) tendem a atribuir características femininas a objectos inanimados em testes de personificação (“a ponte é elegante e frágil”), enquanto falantes de línguas onde “ponte” é masculino (como o alemão, die Brücke é feminino? Perdão, a confusão comum: em alemão, der Brücke? Não, “a ponte” em alemão é die Brücke – feminino também.
Um exemplo melhor: “chave” em alemão (der Schlüssel) é masculino, e em espanhol (la llave) é feminino. Falantes de alemão tendem a descrever chaves como duras, pesadas, úteis; falantes de espanhol, como pequenas, douradas, delicadas).

A influência na personalidade aparece quando uma pessoa muda de idioma. É comum bilíngues, relatarem sentir que têm uma “personalidade diferente” em cada língua. Isso ocorre porque cada língua está ligada a memórias afectivas, contextos sociais e valores culturais distintos. Ao falar uma segunda língua, a pessoa pode se sentir mais desinibida (menos ansiedade relacionada a erros), ou mais distante emocionalmente, o que altera o seu comportamento.
Agora a “ferramenta de comunicação”. Acho estranha esta afirmação da tua parte.
Uma percentagem assinalável da população brasileira não sabe que, para além de Portugal e Brasil, a língua Portuguesa é falada ainda em 5 países Africanos (os PALOP) e ainda em algumas partes da Ásia, como por exemplo, Timor Leste.
E uma percentagem ainda maior não consegue entender os Portugueses, ou os nossos irmãos dos PALOP, quando falamos.

Se queres afirmar que a língua é uma mera “ferramenta de comunicação”, ajudará a aumentar a tua credibilidade o facto de dominares bem a gramática da língua que falas e fazeres um esforço honesto para perceber os outros.
Caobe

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