Desabafo de uma Professora

Desabafos de uma Professora

Desabafo de uma Professora

“Hoje, um menino de 7 anos olhou pra mim e disse que eu não servia para nada.”
Assim começou o meu último dia como professora primária numa escola pública.
Sem ironia. Sem raiva.
Apenas uma voz indiferente, como se estivesse comentando algo sobre o tempo.

— Você não sabe fazer TikToks. A minha mãe diz que as pessoas velhas como você deviam se aposentar.
Eu sorri. Aprendi a não levar para o lado pessoal.
Mas mesmo assim… algo dentro de mim se partiu um pouco mais.

O meu nome é Helena.

Ministrei o 1º ano numa cidadezinha, nos arredores de Belo Horizonte durante 36 anos.
Hoje, arrumei a minha sala pela última vez. Quando comecei, no fim dos anos 80, ensinar era um ministerio. Um laço sagrado.
As pessoas confiavam em nós. Até nos admiravam. Não ganhávamos muito, mas havia respeito. E isso valia mais do que qualquer salário.
Os pais levavam bolo de fubá para as reuniões.
As crianças faziam cartões de aniversário, cheios de erros de português e corações tortos.
E quando alguém lia a sua primeira frase em voz alta…
Era uma alegria que dinheiro nenhum podia pagar.
Mas alguma coisa mudou.
Devagar. Silenciosamente. Ano após ano.
Até que um dia, olhei para a minha sala e não reconheci mais o trabalho que tanto amei.
E não é só por causa de tablets e lousas digitais – embora também seja.
É o cansaço.
A falta de respeito.
A solidão.
Antes, eu passava as tardes recortando maçãs de papel para enfeitar as paredes.
Agora, passo preenchendo relatórios num aplicativo de comportamento, caso algum pai resolva me processar.
Já gritaram comigo na frente de toda a turma.
Não alunos — os pais.
Um deles disse-me:
— A senhora não sabe lidar com crianças, vi um vídeo no telefone do meu filho.
Ele tinha-me filmado sem autorização, enquanto eu tentava acalmar outro aluno em crise.
Ninguém me perguntou como eu estava.
Ninguém quis saber que eu estava funcionando à base de chiclete, café e pura força de vontade.
As crianças também mudaram.
E a culpa não é delas. Vivem num mundo acelerado, barulhento, e desconectado.
Chegam à escola sem dormir, viciadas em telas e emocionalmente despreparadas.
Alguns chegam com raiva, outros, com medo.
Muitos não sabem segurar um lápis, esperar a vez ou dizer “por favor”.
E esperam que nós dê-mos conta de tudo.
Seis horas por dia. Sem assistentes. Com 28 alunos. E um orçamento que não dá nem pra comprar um bolo de aniversário.
Me lembro de quando a minha sala era um abrigo.
Tínhamos um cantinho da leitura com almofadas coloridas.
Cantávamos todas as manhãs.
Aprendíamos a ser gentis antes de aprender a somar.
E agora?
Agora pedem-me para focar em “metas de aprendizagem”, “métricas”, “resultados mensuráveis”.
O meu valor mede-se pela forma como uma criança de 6 anos preenche bolinhas, numa prova padronizada de Março.
Uma vez, um supervisor disse-me:
— Você é muito “afectiva”, o nosso município quer resultados.
Como se conectar com crianças fosse um defeito.
Mas eu continuei.
Porque sempre existiram momentos. Pequenos. Sagrados.
Uma criança que cochichou pra mim:
— Você parece a minha vó. Queria morar com a senhora.
Outra que deixou um bilhete na minha mesa:
— Aqui me sinto seguro.
Ou aquele menino tímido que finalmente olhou nos meus olhos e disse:
— Li sozinho.
Agarrei esses momentos como se fossem boias de salvação.
Porque eles me lembravam que, mesmo quando o mundo gritava o contrário, eu ainda estava fazendo algo que importava.
Mas este último ano… me quebrou.
A violência aumentou.
Um aluno jogou uma cadeira pela sala. Outro me ameaçou:
— Vou trazer uma coisa de casa amanhã.
E tudo porque pedi para ele se sentar.
O telefone da escola virou uma linha directa de emergência.
A coordenadora pediu a demissão em Outubro.
Em Novembro, já não havia mais professores substitutos.
A exaustão virou uma névoa densa e constante.
E eu
? Comecei a sentir-me invisível. Substituível.
Como uma máquina velha num mundo digital, que já não acredita no toque humano.
Arrumei a minha sala hoje.
Arranquei desenhos desbotados das paredes – alguns de décadas atrás.
Encontrei uma caixa de cartinhas de uma turma de 1995.
Uma delas dizia:
— Obrigado por gostar de mim, mesmo quando fui bagunceiro.
Chorei ao ler.
Porque, naquela época, ser professora significava alguma coisa.
Hoje, parece uma profissão pela qual, a gente precisa pedir desculpa.
Não houve festa. Nem discurso.
Só um aperto de mão do novo director, que me chamou de “senhora” e checou o celular no meio da despedida.
Esqueci a minha caixa de adesivos. A minha cadeira de balanço. A minha paciência.
Mas levo comigo a lembrança de cada criança, que um dia me olhou com encanto, com confiança ou com alívio.
Isso é meu. Ninguém me pode tirar.
Não sei o que vem agora.
Talvez eu seja voluntária na biblioteca da cidade.
Talvez eu aprenda a fazer pão caseiro.
Ou talvez eu apenas me sente na varanda com um chá quente, lembrando de um tempo que era mais gentil.
Porque sinto falta.
Sinto falta de quando ser professora era ser aliada, não alvo.
Quando escola e família caminhavam juntas.
Quando educar era cultivar, não apenas medir desempenho.
Se você já foi professor ou professora, você entende.
A gente não fez isso pelas férias.
Fizemos pelo menino que aprendeu a amarrar os cadarços.
Pela menina que finalmente sorriu depois de semanas em silêncio.
Pelos que precisavam de nós de uma forma, que nenhuma prova consegue mensurar.
Fizemos por amor. Por esperança. Por acreditar que ainda dava para mudar o mundo.
Então, se um dia encontrar uma professora – de ontem ou de hoje – agradeça.
📌
Que as professoras do passado saibam que não estão esquecidas.
Que as de hoje saibam que não estão sozinhas.
Simples Assim

In: Chico - Cartas de Paz e Consolação
Chico Xavier
Desabafo de uma Professora
Caobe

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