O professor de matemática

O Professor de Matemática

Durante dezassete anos, Marcelo deu aulas de matemática numa escola pública. Gostava do trabalho, embora tivesse aprendido cedo que, nem todo o resultado de uma sala de aula cabia no boletim. Havia alunos que aprendiam rápido, outros que precisavam de mais tempo e alguns que pareciam ter problemas maiores esperando por eles, assim que o portão da escola se fechava.
Lucas pertencia ao último grupo.
Tinha quinze anos, sentava-se perto da parede e entregava quase todas as provas pela metade. Marcelo já havia conversado com ele algumas vezes, mas recebia sempre respostas curtas. O garoto não era indisciplinado. Apenas parecia cansado demais para a idade que tinha.

Numa quarta-feira, depois que a turma saiu, Marcelo encontrou uma prova sobre a carteira. Era de Lucas. Havia duas questões respondidas e, no verso da folha, várias contas feitas a lápis. Nenhuma tinha relação com a matéria.

Somou algumas delas por curiosidade.
32 + 18 + 25 + 40.
Na linha seguinte: 115 – 87.
Mais abaixo: 28 ÷ 4.
No dia seguinte, pediu que Lucas permanecesse alguns minutos depois da aula.
— Posso te perguntar o que são essas contas?
O garoto olhou para a folha e pareceu constrangido.
— Nada, professor.
Marcelo esperou.
— Podes dizer.
Lucas puxou a cadeira para mais perto da mesa.
— A minha mãe faz marmitas, que eu entrego depois das aulas. Ontem precisava de saber quanto tinha entrado e quanto dava para comprar as coisas de hoje.
Marcelo olhou novamente para a prova. As contas que pareciam rabiscos agora tinham arroz, feijão, embalagens e uma casa inteira escondidos dentro delas.
— E esses vinte e oito divididos por quatro?
Lucas sorriu, um pouco sem jeito.
— Era o que tinha sobrado. Somos quatro lá em casa.
O professor não perguntou mais nada.
Na semana seguinte, começou a usar alguns minutos do fim das aulas para ensinar porcentagens, juros, custos, trocos e margens de lucro. Não disse que fazia aquilo por Lucas.
Marcelo chamou-lhe simplesmente de “matemática da vida” e, logo descobriu, que outros alunos também tinham perguntas, que os livros raramente faziam.
Meses depois, Lucas apareceu na sala dos professores carregando uma folha dobrada.
— A minha mãe pediu para entregar isso ao senhor.
Era uma tabela feita à mão. De um lado estavam os ingredientes; do outro, os custos, a quantidade de marmitas produzidas e o valor que precisava ser cobrado para que sobrasse algum dinheiro no fim do dia.
Na última linha havia uma conta circulada, e desta vez, o resultado era positivo.

Marcelo ficou olhando para aquele número durante alguns segundos. Durante anos havia corrigido milhares de exercícios, preenchido diários e calculado médias, para decidir quem havia aprendido o suficiente para avançar.

Naquela tarde, percebeu que uma das contas mais importantes da sua carreira nunca apareceria numa prova. Lucas continuaria tendo dificuldades em matemática por algum tempo. A vida na sua casa também não se resolveria com algumas aulas sobre porcentagens.
Mas alguma coisa havia mudado: aquilo que antes servia apenas para dividir o pouco que sobrava começava a ajudá-lo a compreender como fazer sobrar um pouco mais.

Existem conhecimentos que só revelam o seu verdadeiro valor quando encontram a necessidade de alguém. Talvez ensinar seja justamente isso: não colocar respostas dentro de uma pessoa, mas entregar ferramentas para que ela consiga enfrentar perguntas, que ainda nem sabemos que a vida lhe fará.

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