Senhor me ensina a ler O relógio marcava quase meia-noite. A livraria estava fechando, lá dentro, Júlio organizava os últimos livros. Era um homem de 62 anos, viúvo, sem filhos, dono daquele pequeno refúgio no meio da correria da cidade. Sempre fora apaixonado por histórias, mas há muito tempo que já não acreditava nas suas próprias.Até que, ao olhar pela vitrine, viu uma cena que prendeu a sua atenção. Do outro lado do vidro, um garoto com, no máximo dez anos, estava parado, olhando fixamente para os livros expostos. Descalço, camiseta surrada e um olhar que misturava curiosidade e tristeza.Júlio abriu a porta e perguntou. — Tá tudo bem, meu filho? Tás perdido? — Perguntou, com a voz rouca. O garoto baixou os olhos, envergonhado. — Senhor… me desculpe… não quero incomodar… — Fez uma pausa, respirou fundo e disse… — Mas… será que… você pode me ensinar a ler?Por um instante, Júlio ficou sem palavras. — Como é que é? — Perguntou, achando que tinha ouvido mal. — Me ensina a ler? Eu… eu vejo as pessoas pegando esses livros… elas sorriem… elas ficam felizes. Eu… eu queria entender o que tem dentro deles. Só queria saber o que todo o mundo sabe… Júlio sentiu algo dentro dele se quebrar.— Onde tá a sua mãe? O seu pai? — A minha mãe trabalha muito, catando latinha… o meu pai… eu nunca conheci. A gente vive num quartinho… mas ela também não sabe ler. Houve um silêncio, só o barulho da chuva que começava a cair. — Entra, menino. Qual é o seu nome? — Miguel, respondeu tímido. Naquela noite, os livros não foram organizados. Mas algo muito maior foi colocado em ordem: duas vidas, até então vazias, começaram a se preencher.Nos dias seguintes, Miguel voltava sempre que podia. Aprendeu as primeiras letras. Depois as primeiras palavras. Depois, lia histórias inteiras, com uma sede que Júlio nunca tinha visto em ninguém. Mas não era só ele que aprendia. Aos poucos, Júlio percebeu que, sem saber, também estava sendo salvo. A solidão que lhe apertava o peito há anos… foi ficando menor. Certo dia, Miguel chegou segurando uma folha amassada.— Senhor… a minha mãe pediu pra você explicar isso pra ela.— Entregou, com as mãos trêmulas.Júlio abriu o papel. Era uma notificação de despejo. Tinham uma semana pra sair do quartinho onde moravam.Naquele instante, sem pensar, Júlio tomou uma decisão. — Vem cá, Miguel.— Segurou as suas mãos e perguntou…— Queres fazer parte da minha família? Queres ser meu neto?A tua mãe também pode vir. A gente dá um jeito juntos.Miguel arregalou os olhos, sem acreditar.— Sério? Mas… mas porquê?— Porque me ensinaste… que nunca é tarde pra recomeçar. E assim foi. Ajudou a mãe dele a terminar os estudos. Reformaram juntos o andar de cima da livraria, que virou um lar cheio de livros, risos e cheiro de café. Anos depois, Miguel, já adolescente, fez um discurso na inauguração da nova biblioteca comunitária que construíram juntos: — Um dia eu pedi ao senhor Julio: ‘senhor, me ensina a ler’. Mas ele fez mais. Me ensinou que família não nasce só do sangue… nasce do amor, da bondade… e do desejo de mudar o mundo, uma pessoa de cada vez.E, ali, Júlio chorou como nunca tinha chorado antes. Não de tristeza, mas da certeza de que, sim… ele tinha encontrado o seu final feliz. Reginaldo Ramos